:: O Futuro do Mercado Financeiro


Existem boas razões para se acreditar em um bom futuro para o sistema financeiro no Brasil.

A economia brasileira deverá ingressar em novo ciclo de crescimento sustentado, com a redução da vulnerabilidade externa e superação das turbulências de curto prazo associadas à mudança de governo.

A redução da chamada "cunha fiscal" poderá, finalmente, ganhar impulso mais decisivo, à medida que a nova equipe econômica decida priorizar esse objetivo. Isso significaria reduzir tributos sobre a intermediação financeira (IR, CPMF, IOF), reduzir taxas de recolhimento compulsório, agilizar os processos judiciais para recuperação de créditos inadimplentes etc. Com isso o diferencial entre as taxas de captação e de aplicação de recursos pelo sistema financeiro poderá reduzir-se substancialmente, criando condições para ampliação do mercado de crédito. A elevada "cunha fiscal", que tem caracterizado o sistema financeiro no Brasil, estimula o desenvolvimento de mercados paralelos, em detrimento do sistema financeiro organizado. Essa distorção contribui, também, para reduzir a eficiência na alocação da poupança em prejuízo do desenvolvimento econômico e social do País.

Outra tendência inexorável será a redução da taxa real de juros do lado da captação de recursos, a começar pelos títulos de dívida pública, imprescindível para viabilizar o crescimento da atividade econômica, a geração de empregos e a redução do déficit público. Sem isso, não há como viabilizar o crescimento sustentado da economia. A taxa básica real de juros, que está próxima de zero nos países de primeiro mundo e não passa de 3% a.a., em média, nos países emergentes, situa-se em torno de 10% a.a., no Brasil, nível totalmente insustentável a médio e longo prazos. A tendência para a "normalização" do patamar dos juros básicos representará, também, impulso decisivo para ampliação das atividades do sistema financeiro.


Como resultante das tendências antes mencionadas deveremos ter crescimento consistente, nos próximos anos, da relação "crédito bancário/PIB", que no Brasil é, ainda, muito reduzida (28%), em face das distorções existentes.

Não parece provável que o sistema bancário mantenha, nos próximos anos, o mesmo nível de rentabilidade atual. A ampliação do volume de recursos intermediado pelo sistema financeiro poderá não ser suficiente para compensar a redução dos spreads, mas não há por que temer pelo futuro dos bancos como negócio lucrativo, desde que bem administrados. A rentabilidade deverá cair, simplesmente porque não parece viável a obtenção de resultados excepcionais a longo prazo. O crescimento da competição tenderá a, naturalmente, fazer a rentabilidade dos bancos caminhar para patamares compatíveis com os de outros setores da atividade econômica. Para os bancos, como negócio, um cenário de crescimento sustentado, com juros razoáveis e rentabilidade satisfatória, será mais atraente a longo prazo do que o de juros elevados que levem à recessão. Se a economia entrar em recessão, não há dúvida de que a crise acabará afetando a rentabilidade e mesmo a solidez do sistema bancário. Exemplo disso é a economia japonesa, onde muito se fala da crise do sistema financeiro como causa da recessão, quando, possivelmente, se confunde efeito com causa.

No caso brasileiro, se a economia não crescer, as dificuldades enfrentadas pelos tomadores de empréstimos (pessoas físicas, empresas e o próprio setor público) acabarão, fatalmente, afetando a rentabilidade e o crescimento do sistema financeiro.

Seria ingenuidade imaginar que o sistema financeiro possa desenvolver-se em um cenário de estagnação ou recessão.

O sistema financeiro brasileiro já enfrentou grandes desafios e saiu-se bem. A queda brusca da inflação, ainda que temporária, por ocasião do Plano Cruzado, foi um exemplo. Dizia-se, na ocasião, que a rentabilidade dos bancos dependia do floating permitido pela elevada taxa de inflação. A adaptação do sistema bancário a novos patamares da inflação foi bastante rápida naquela oportunidade. O mesmo ocorreu, quando da implantação do Plano Real, quando a queda da inflação deu-se de forma duradoura.