:: O Rio de Todos os Brasis

O Rio celebrado por poetas e cantores como o coração extrovertido do Brasil é uma criação da República Velha, que durou enquanto o Brasil gostava de se olhar no espelho. Nas duas últimas décadas, o Brasil mergulhado em crises sucessivas foi perdendo a auto-estima e já não gosta de se ver. Por isso, não olha para o Rio. Tem preferido (pelo menos até as últimas eleições) olhar para as próprias mazelas e lamentar o tempo e o espaço perdidos.

Criação da República Velha, sim. Já antes era uma cidade aberta, o porto de ligação com o hinterland mineiro e o resto do mundo. Mas os homens que criaram a República miravam em torno e se viam envergonhados, por causa do atraso em relação ao Novo Mundo. Fomos a última monarquia do continente. Esperamos quase o fim do século XIX para extinguir a escravatura. E éramos luso-americanos - isto é, a ex-colônia de uma republiqueta na ponta da Europa que não conseguia ir para lugar nenhum.

Com tanto motivo para se ter vergonha do passado e do entorno, os republicanos empenharam-se em fazer do Rio o símbolo da modernidade brasileira. E nela encarnaram o imaginário do presente e do futuro. Foi um projeto deliberado, fruto de uma necessidade de afirmação. Aqui concentraram todas as atenções. Pereira Passos empreendeu um grande projeto urbanístico, enquanto Oswaldo Cruz promovia a reforma sanitária. O centro foi remodelado, surgiram novos prédios e novas avenidas, a zona marítima foi incorporada à cidade, pela Avenida Beira-Mar, com um novo porto para a revolução industrial.

A Velha República queria provar ao mundo que era possível construir uma Paris nos trópicos. E assim começou a surgir o mito. O Teatro Municipal em pé de igualdade com a Ópera parisiense, a Avenida Central, com seus novos prédios, tão vistosa quanto os bulevares da capital francesa. Mas para que esse mito se afirmasse de forma definitiva, era preciso que toda essa nova estrutura ganhasse alma. O Rio a ganhou com os modernistas, após a Primeira Guerra Mundial, materializada na metáfora do carioca.

Esse foi um produto de escritores e artistas como Gilberto Freire, Vila-Lobos, Portinari, J. Carlos, Lima Barreto, João do Rio, Noel Rosa. Esses intelectuais debruçaram-se sobre o Brasil, à procura de uma identidade brasileira, e a encontraram na figura do morador popular do Rio de Janeiro, extrovertido, alegre, crítico, imaginativo, bem-humorado - o carioca. Combinam-se, assim, no imaginário coletivo, um tipo de povo especialíssimo no mundo e a plástica de uma cidade também sem paralelo no mundo.

O Rio se tornou, assim, o mito formador do Brasil moderno. A modernidade brasileira ficou associada à Cidade Maravilhosa - batizada por uma encantada visitante francesa - e ao seu povo espetacular. E a carta de acesso à cidadania carioca, pelas características seculares de uma cidade aberta, estava à disposição
de quantos aqui aportassem, seja vindo do "interior", seja do exterior. Ser carioca não diz respeito a uma certidão de nascimento. É, de fato, um estado de espírito.

Foi esse estado de espírito que mudou nas duas últimas décadas. E mudou porque o elemento de verdade que tem no mito do carioca perdeu um pouco de sua alma, em face da decadência geral do país mergulhado em crises sucessivas. Na realidade, construído para ser o retrato avançado da Nação, o mito do Rio e do carioca resiste bravamente mais do que o resto do País às mazelas da época. Se o Rio perdeu prestígio, é porque tudo no Brasil perdeu prestígio, e ninguém ganhou; o que se perdeu aqui não foi deslocado para São Paulo ou Brasília. Continua aqui, em estado de espírito, pronto para ressurgir a qualquer provocação - como efetivamente ressurge em espetáculos inacreditáveis como o ano-novo de Copacabana, reunindo na praia, para ver fogos maravilhosos, 30% da população da cidade!

Sim, a cidade já não é tão maravilhosa, e o carioca perdeu parte do espírito extrovertido. Contudo, trata-se do efeito inelutável da perda de auto-estima de um país mergulhado em anos de recessão e de desemprego, prisioneiro da desesperança e do medo. A vontade de se expandir, porém, não se limita ao ano-novo. Pois qual outro estado daria cerca de 80% dos votos a Lula no segundo turno, na mais genuína manifestação de confiança na democracia e no imperativo da mudança política? O que une esses eleitores, senão um mesmo estado de espírito? E que estado de espírito é esse, que não o início da recuperação da auto-estima do Brasil - que começa e termina no Rio de todos os brasis?

Carlos Lessa
Economista, Reitor da UFRJ e autor do livro O Rio de Todos os Brasis.